{"id":329,"date":"2020-03-09T10:00:27","date_gmt":"2020-03-09T10:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ompoint.org\/?p=329"},"modified":"2020-07-08T17:04:25","modified_gmt":"2020-07-08T17:04:25","slug":"causalidade-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ompoint.org\/pt\/causalidade-1\/","title":{"rendered":"Causalidades 1"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O mundo \u00e9 de quem n\u00e3o sente. A condi\u00e7\u00e3o essencial para ser um homem pr\u00e1tico \u00e9 a aus\u00eancia de sensibilidade. A qualidade principal na pr\u00e1tica da vida \u00e9 aquela qualidade que conduz \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a vontade. Ora h\u00e1 duas coisas que estorvam a ac\u00e7\u00e3o &#8211; a sensibilidade e o pensamento anal\u00edtico, que n\u00e3o \u00e9 afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a ac\u00e7\u00e3o \u00e9, por sua natureza, a projec\u00e7\u00e3o da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo \u00e9 em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projec\u00e7\u00e3o da personalidade \u00e9 essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.<\/p>\n<p>Para agir \u00e9, pois, preciso que n\u00e3o nos afiguremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza p\u00e1ra. O homem de ac\u00e7\u00e3o considera o mundo externo como composto exclusivamente de mat\u00e9ria inerte &#8211; ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque n\u00e3o lhe p\u00f4de resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como \u00e0 pedra, ou se afastou ou se passou por cima.<\/p>\n<p>O exemplo m\u00e1ximo do homem pr\u00e1tico, porque re\u00fane a extrema concentra\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o com a sua extrema import\u00e2ncia, \u00e9 a do estrat\u00e9gico. Toda a vida \u00e9 guerra, e a batalha \u00e9, pois, a s\u00edntese da vida. Ora o estrat\u00e9gico \u00e9 um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com pe\u00e7as do jogo. Que seria do estrat\u00e9gico se pensasse que cada lance do seu jogo p\u00f5e noite em mil lares e m\u00e1goa em tr\u00eas mil cora\u00e7\u00f5es? Que seria do mundo se f\u00f4ssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, n\u00e3o haveria civiliza\u00e7\u00e3o. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ac\u00e7\u00e3o teve de esquecer. A arte \u00e9 a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.<\/p>\n<p>Todo o homem de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente animado e optimista porque quem n\u00e3o sente \u00e9 feliz. Conhece-se um homem de ac\u00e7\u00e3o por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora esteja mal disposto \u00e9 um subsidi\u00e1rio de ac\u00e7\u00e3o; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que n\u00e3o pode ser \u00e9 um regente de coisas ou de homens. \u00c0 reg\u00eancia pertence a insensibilidade. Governa quem \u00e9 alegre porque para ser triste \u00e9 preciso sentir.<\/p>\n<p>O patr\u00e3o Vasques fez hoje um neg\u00f3cio em que arruinou um indiv\u00edduo doente e a fam\u00edlia. Enquanto fez o neg\u00f3cio esqueceu por completo que esse indiv\u00edduo existia, excepto como parte contr\u00e1ria comercial. Feito o neg\u00f3cio, veio-lhe a sensibilidade. S\u00f3 depois, \u00e9 claro, pois, se viesse antes, o neg\u00f3cio nunca se faria. \u2018Tenho pena do tipo\u2019, disse-me ele. \u201cVai ficar na mis\u00e9ria\u201d. Depois, acendendo o charuto, acrescentou: \u201cEm todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim\u201d &#8211; entendendo-se, qualquer esmola &#8211; \u201ceu n\u00e3o esque\u00e7o que lhe devo um bom neg\u00f3cio e umas dezenas de contos.\u201d<\/p>\n<p>O patr\u00e3o Vasques n\u00e3o \u00e9 um bandido: \u00e9 um homem de ac\u00e7\u00e3o. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patr\u00e3o Vasques \u00e9 um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.<\/p>\n<p>Como o patr\u00e3o Vasques s\u00e3o todos os homens de ac\u00e7\u00e3o &#8211; chefes industriais e comerciais, pol\u00edticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crian\u00e7as que fazem o que querem. Manda quem n\u00e3o sente. Vence quem pensa s\u00f3 o que precisa para vencer. O resto, que \u00e9 a vaga humanidade geral, amorfa, sens\u00edvel, imaginativa e fr\u00e1gil, \u00e9 n\u00e3o mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras de cena at\u00e9 que a pe\u00e7a de fantoches acabe, o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as pe\u00e7as de xadrez at\u00e9 que as guarde o Grande Jogador que, iludindo-se com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se, sempre contra si mesmo.\u201d<\/p>\n<p>Bernardo Soares (Fernando Pessoa), <i>In<\/i> Livro do Desassossego<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O mundo \u00e9 de quem n\u00e3o sente. A condi\u00e7\u00e3o essencial para ser um homem pr\u00e1tico \u00e9 a aus\u00eancia de sensibilidade. A qualidade principal na pr\u00e1tica da vida \u00e9 aquela qualidade que conduz \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a vontade. 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